Homilética: I domingo da quaresma

Comentário sobre a liturgia do Pe. Antonio Rivero, L.C., Doutor em Teologia Espiritual, professor e diretor espiritual no seminário diocesano Maria Mater Ecclesiae de são Paulo (Brasil)

Pixabay CC0 - Kloxklox_com, Public Domain

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Ciclo C

Textos: Dt 26, 4-10; Rm 10, 8-13; Lc 4, 1-13

A Quaresma do ano 2016 está demarcada no ano da misericórdia. Sabemos bem que Deus é misericórdia e demonstrou ao longo dos séculos. Mas também sabemos que a misericórdia pressupõe que nós nos reconheçamos pecadores, aproximemo-nos de Deus, peçamos-lhe perdão sinceramente e nos proponhamos à emenda de vida. Deus concede misericórdia generosamente e sem limites para quem está arrependido. Dependo de nós abrir o nosso coração a essa misericórdia de Deus mediante o coração contrito e humilhado, disposto para começar de novo e voltar ao caminho reto, deixando a vida e os caminhos de pecado.

Algumas observações para entender a Quaresma guiados pelo evangelho de São Lucas neste ciclo C:

As primeiras leituras nos apresentam os grandes momentos e acontecimentos da história da salvação, segundo o plano histórico de Deus, desde o principio até a chegada de Jesus.

As segundas leituras de São Paulo sempre dão esse tom moral, aplicando a mensagem da primeira leitura à vida de cada um de nós.

Os evangelhos têm uma linha clássica: as tentações de Jesus, a transfiguração no monte (comum aos outros evangelhos no ciclo A e B). Os outros domingos têm um tom de conversão para demonstrar a grande misericórdia de Deus.

Comentário para este primeiro domingo da Quaresma:

Ideia principal: O deserto da Quaresma nos convida a centrar a nossa vida no essencial: na fé que devemos professar com a boca e com a vida (1 e 2 leituras). Fe que será provada pelo inimigo das nossas almas, o Demônio, que nos tentará nos três pontos mais fracos que todos carregamos como herança do pecado original: ter, poder e glória (evangelho).

Síntese da mensagem: Ajudados pelos recursos pedagógicos da Quaresma- ambientação mais austera, cantos apropriados, o silêncio do aleluia e do Glória- e sobretudo pelas orações e leituras bíblicas, dispomo-nos para empreender, na companhia de Jesus, a sua “subida à Cruz”, para viver uma vez mais a Páscoa, a passagem a uma vida nova. Cristo quer nos comunicar um ano mais a sua vida nova com a oração e o sacrifício para sermos fortes diante das tentações diárias de Satanás no deserto da nossa vida, renovando a nossa fé no Senhor. Não podemos negociar com o maligno. Viver de outro jeito, ou seja, “de batismo, sou cristão e, de profissão, sou pagão” é uma incoerência e tentaríamos a Deus.

Pontos da ideia principal:

Em primeiro lugar, vamos ao deserto. O deserto reduz o homem ao essencial, despojando-o do supérfluo, a ficar só com as coisas fundamentais: água, comida, caminho apertado, roupa apropriada para se proteger do sol e do frio. E sobretudo com a fé. Fe nua dos seus apetites e desejos, da que fala o nosso místico “abulense”, São João da Cruz nas suas obras Noite Escura da Alma, o Cântico Espiritual e a Chama de amor Viva. A Quaresma que acaba de ser aberta com Cristo no deserto quer nos levar à substancia e ao miolo da existência cristã: a fé no nosso Deus por cima de tudo. Aqui no deserto da Quaresma, do mesmo modo que Moisés pedia ao povo “a profissão histórica de fé” ao oferecer as primícias diante do altar do Senhor (1 leitura), também a nós pede renovar a nossa fé. A profissão de fé não é uma lista de “verdades para crer” ou de “quefazeres para cumprir”, mas uma “história para recordar e pela qual dar graças”. Para o povo de Israel era o recordar das grandes maravilhas que Deus fez com ele para tirá-lo da escravidão do Egito; para nós, voltar a experimentar nesta Páscoa a autêntica liberdade trazida pela morte e ressurreição de Cristo, que nos desatou da escravidão do pecado e da morte eterna e nos fez partícipes da vida nova; vida de santidade e de graça, vida de liberdade e de plenitude. Não podemos ter saudades das “cebolas do Egito sedutor”, mas voltar a agradecer a liberdade dos filhos de Deus concedida no batismo.

Em segundo lugar, durante o deserto da nossa vida devemos recordar as façanhas misericordiosas de Deus para renovar a nossa fé nesse Deus fiel. Fazer isto não é somente exercício de pensamento, mas uma viagem ao interior da trama às vezes escura e frágil da nossa própria história. Luzes e sombras. Santidade e pecado. Tempestade e bonança. Segurança e desconcerto. Dúvidas e certezas. Assim tem sido a nossa vida e a vida da humanidade. Essa fé em Deus misericordioso se alimenta na oração contemplativa, sim, mas depois tem que se derramar como perfume de caridade no nosso dia-a-dia: na nossa casa e na família, no trabalho e nas amizades, na rua e nas férias, pois “a fé sem obras é uma fé morta” (Tiago 2,14). Portanto, na Quaresma, Deus também nos convida a revisar as nossas obras de caridade e de misericórdia, como nos recordou o Papa Francisco ao nos pedir trabalhar em cada mês do ano da misericórdia numa dessas obras de misericórdia, que têm o seu fundamento bíblico em (Isaias 58,6-7 e Hebreus 13,3): Dar de comer ao faminto, dar de beber ao sedento, dar hospedagem ao necessitado, vestir o nu, visitar o enfermo, socorrer os presos e enterrar os mortos (materiais). Ensinar o que não sabe, dar bom conselho ao que necessita, corrigir o que está no erro, perdoar as injúrias, consolar o que está triste, sofrer com paciência os defeitos alheios e pedir a Deus pelos vivos e pelos mortos (espirituais). Se Deus foi e é misericordioso com o seu povo (1 leitura) e conosco em Cristo Jesus (2 leitura), nós também temos que sê-lo com os nossos irmãos.

Finalmente, a narração das tentações de Jesus é para nós uma urgência e um aviso: durante o deserto da nossa vida a nossa fé será tentada. Cristo aqui, vencendo o maligno que quis distorcer a sua missão messiânica para convertê-la em missão temporal e triunfalista, chega para ser para nós o emblema luminoso da fé bíblica, isto é, da adesão plena e total a Deus e ao seu plano traçado no cosmos e na história: o plano da salvação através da pobreza, do desprendimento, do sofrimento e da cruz. Também nós seremos tentados por esses três lados fracos: ter, poder e glória. Então, o que fazer? Cristo nos ensina a vencer as tentações. Rejeitando as tentações do inimigo, ensinou-nos a sufocar a força do pecado. E os meios que usou foram: a oração com a Palavra de Deus que é espada de dois gumes (cf. Hb 4,12); sem oração, um homem é como um soldado sem água, comida e munição. Oração com a Bíblia entre as mãos. O jejum, para fortalecer o espírito e ter na linha e educar o nosso corpo que sempre tem as suas teimosias de sensualidade, materialismo e ambição. O jejum é um treinamento no conhecimento próprio; é uma arma chave para o autodomínio. Se não temos domínio sobre nossas próprias paixões, especialmente sobre a comida e o sexo, não podemos nos possuir a nós mesmos e colocar o interesse dos demais antes do que o nosso. Não esqueçamos a vigilância para estar alerta e nos dar conta por qual caminho da nossa vida quererá nos assaltar o inimigo de Deus e da nossa alma. O desprendimento das coisas nos fará muito bem para encher-nos de Deus; infelizmente, quanto mais vazio está o coração da pessoa, mais precisa de objetos para comprar, possuir e consumir. A humildade será arma eficaz contra o nosso orgulho; a proteção maior contra o egoísmo e autossuficiência é buscar a Deus humildemente na oração. Empunhemos também a arma do santo Rosário, que tanto odeia e teme o demônio, pois contemplar os mistérios de Cristo al lado de Maria deixa o demônio com uma raiva sem nome e se afastará de nós imediatamente. Santo Tomás diz: “Não agiu o Senhor na tentação usando do seu poder divino- de que nos teria aproveitado então o seu exemplo?- mas que, como homem, serviu-se dos auxílios que tem em comum conosco” (Comentário ao evangelho de São Lucas).

Para refletir: Como quero viver neste ano esta Quaresma? Quais tentações experimento durante o caminho pelo deserto da vida: sensualidade e luxuria, ambição e avareza, vaidade e soberba, preguiça e relaxamento? Quais são as armas que levo comigo para ganhar a batalha do inimigo: oração, jejum, sacrifícios, vigilância, o santo rosário, a cruz de Cristo?

Para rezar: Neste ano da misericórdia vos peço, Senhor Jesus, que não abuse mais do vosso amor e ternura. Dai-me força para vencer o inimigo que quer ganhar a minha alma. Que ao vosso exemplo, não dialogue com o tentador, mas que o assalte com a vossa Palavra que é ao mesmo tempo, dardo e escudo, capacete e armadura. Senhor, que ore para não cair na tentação.

Qualquer sugestão ou dúvida podem se comunicar com o padre Antonio neste e-mail: arivero@legionaries.org

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