Pe Volmar Scaravelli, c.s.

OS LEPROSOS

Um escritor cristão dos primeiros tempos chamado Gregório descreve a lepra como uma doença horrível. Conta como a doença come a carne e os ossos da vítima ao ponto de leprososnão se poder  mais reconhecer  quem é a pessoa. Os leprosos tinham que dizer: “sou o filho de fulano, ou minha mãe se chama Judite, ou eu era teu amigo, brincávamos juntos”.

Gregório escreve: “Eles não podem ser reconhecidos por seus rasgos, pelo que eram antes. Comidos pela enfermidade perderam o dinheiro, seus pais e mais ainda, os seus corpos”.

“Uma mãe, gostaria de abraçar o seu filho porém teme o seu corpo como teme a um inimigo” escreve.

E por isso as leis proibiam que os leprosos entrassem nas cidades ou viajassem pelas rodovias públicas, muito menos se não tocassem a campainha a fim de  que algum distraído que andasse por perto não se aproximasse deles. Não podiam tampouco tocar nos lagos ou nos rios.

É muito difícil para nós imaginar o que significava isso, é difícil ter uma comparação porque hoje temos os antibióticos que curam a lepra e outras doenças contagiosas.

Talvez algumas pessoas mal informadas  poderiam fazer uma comparação com a   AIDS. Eu pessoalmente visitei no hospital muitos doentes aidéticos e lembro que a primeira vez, senti medo. Mas agora eu sei que podemos tocar, abraçar sem problema de contagio.

 Muitos de nós nos escandalizamos hoje ao ver a violência das leis antigas que enxotavam os hansenianos para fora da convivência social, mas não percebemos e nem nos envergonhamos de como nós, de como nossa sociedade trata os leprosos de hoje: Têm leprosos modernos nas nossas cidades:  as vítimas das drogas, mesmo os  da AIDS, as prostituas, os ex presidiários. Vivemos numa sociedade sem piedade. Sabemos como é difícil para um ex-presidiário integrar-se na sociedade, fica marcado para sempre, de maneira especial aqui aonde as leis funcionam melhor, porém que são por vezes  impiadosas.

Proibido dar-lhes trabalho, proibidos tocar neles, proibido deixá-los entrar e participar. Há apenas 45 anos atrás aqui nos USA os negros não podiam entrar nos mesmos bares frequentados pelos brancos, ou no mesmo ônibus e pouca gente se envergonhava disso.

 A sociedade moderna em nome da liberdade individual, primeiro permite tudo e assim vai criando e gerando drogados, depravados sexuales e depois,  os marginaliza.

Nossa sociedade tem as suas formas dissimuladas para manter isoladas a certas classes de pessoas.

Mesmo entre nós, entre os nossos jovens e adolescentes existe isso. Nunca aconteceu ver uma pessoa tímida, isolada do grupo todo o tempo sem ninguém aproximar-se dela? Uma vez uma jovem me contou que estava num lugar aonde todas as meninas falavam alto rindo-se entre gargalhadas enquanto ela ficava de lado. No final da noite uma delas se aproximou com um sorriso  e lhe disse: “ Me imagino que você deve estar pensando que somos todas loucas aqui”.  Ela sentiu vontade de lhe dizer: “Não são loucas senão insensíveis e mal educadas”.

 Jesus não tem esse problema. Jesus se aproxima, toca, cura e nos reintegra, quer que sejamos família, comunidade. Ele manda os leproso apresentar-se ao sacerdote do Templo para que os declarasse puros e lhes desse a licença de poder ingressar nos lugares públicos.

 O que Jesus faz é uma denúncia à nossa sociedade, a cada um de nós e  nos ensina a ser mais sensíveis com as pessoas.

Quem sabe você tenha ou teve uma experiência com pessoas marginalizadas, rotuladas. Quem sabe você mesmo já sentiu na pele a discriminação. Ou por ser migrante ou por não sabe falar inglês ou por outros motivos.   Ninguém deve discriminar porque todos temos o teto de vidro.

Talvez tenhamos outros tipos  de lepras que vão crescendo dentro de nós e nos afeta porque vão nos comendo o corpo e a alma e precisamos ser curados: é a intolerância, a xenofobia, o racismo, a discriminação, a soberbia, o orgulho que fazem que nos pensemos superiores aos demais.

Porém existe alguém que quer nos tocar, abraçar, e mais, quer nos curar  dessas lepras e de outras lepras. É o mesmo Jesus que curou os dez  leprosos do evangelho.

 E quando isso acontecer, não  esqueçamos de voltar vez por vez para agradecer. A gratidão é o fundamento da fé, e a fé,  a porta da salvação. Jesus nos dirá: “Vai em paz! Tua fé te salvou”. 

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