Indignado com amor

Pe Volmar Scaravelli, c.s.

Estamos acostumados ver um Jesus amável, manso e humilde, com as mãos estendidas para nos acolher, com o coração traspassado pela espada ou ainda carregando uma ovelha nos braços, símbolo do Bom Pastor. Aparecem na internet imagens de Jesus sorrindo para as crianças. Gostamos da imagem de Jesus: manso e humilde.

Hoje, no entanto o vemos no Tempo de Jerusalém indignado, com um chicote na mão expulsando todo mundo do Templo.

 Cólera, ira, raiva, indignação são palavras que significam quase a mesma coisa.

Todos nós tivemos momentos de raiva, e todos nós já fomos vítimas da fúria de alguém.

É evidente que devemos evitar a raiva e a ira. São sentimentos e emoções que nos deixam doentes e prejudicam a nós e àqueles que estão perto de nós. Devemos esforçar-nos em cada momento para controlar esses impulsos. Jesus nos adverte que quem fica com raiva do seu irmão será réu. No entanto, existe algum momento na vida que requer uma expressão de indignação ou de ira, sempre que estas sejam bem focalizada.

Para os judeus, o Templo era o lugar privilegiado do encontro com Deus. Ali se colocavam as ofertas e sacrifícios trazidos pelos judeus não só da Palestina, mas do mundo inteiro.

Essa casa de oração tornou-se casa de comércio, de exploração e de poder disfarçada de culto piedoso.

 Jesus deve ter sentido indignação diante dos cambistas, vendedores e exploradores do Templo de Jerusalém: virou mesas, cadeiras, carne, dinheiro e   expulsou todo mundo.

 Na Capela Sistina no Vaticano, Michelangelo pintou a cena do Juízo Final e entre tantas pinturas se vê Jesus com o braço levantado furioso com aqueles seres humanos que haviam desrespeitados os outros. Jesus é manso e humilde com o pecador arrependido, mas pode se indignar contra as injustiças e as obras más.

 A ira de Jesus nos sugere que pode haver um momento na nossa vida em que tu, eu e nós todos podemos expressar a nossa indignação.

Evidentemente os impulsos da cólera e da ira deve ser controlado. Os psicólogos   chamam a esses impulsos de disfunção emocional, nós chamamos de pecados, algo que está mal dentro de nós, e necessitamos confessar e pedir a graça de Deus para que nos perdoe e nos cure.

O grande poeta brasileiro Castro Alves diante da escravidão negra expressava sua indignação escrevendo poesias abolicionistas. “ “Ó Deus aonde estás que não respondes? Em que mundo, em que estrela tu te escondes, embuçado nos céus? Há dois mil anos te mandei meu grito, meu clamor já chega ao infinito, mas aonde estás Senhor Deus? ”

William Wilberforce diante do clamor dos escravos em Atlântica encheu-se de ira, mas não caiu na tentação de fazer justiça pelas próprias mãos, transformando-se num bandoleiro, porém inspirou o primeiro movimento abolicionista do mundo. Ao introduzir a legislação contra a escravidão disse: ‘Não quero acusar a ninguém. Sinto vergonha de mim mesmo. Todos somos culpados”. Mahatma Gandhi Mandela e Luther King também sentiam indignação diante da escravidão e exploração do seu povo. Mas sem dúvida, eles conseguiram canalizar o instinto da ira da melhor maneira: Usando todas as energias para acabar com o comércio da escravidão; tornaram os grandes revolucionários da História. Sua fé em Deus os ajudou e os capacitou para controlar a sua cólera.

Quem não sente indignação diante da injustiça e da pobreza é porque não tem sensibilidade e nem misericórdia. Podemos usar nossa indignação para um bom objetivo, sempre que o fizermos com amor, no lugar e nos momentos certos.

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