 O Documento de Aparecida não quis e nem poderia propor projetos acabados ou linhas de ação exaustivas sobre a família. Decidiu enfocar questões de particular relevância que agora vamos expor.
1. Os filhos têm direito à presença dos pais
No seu discurso de inauguração da Conferência de Aparecida, o Papa Bento XVI defendeu o direito dos filhos em relação à presença dos pais, ou seja, eles têm o direito de contar com o pai e a mãe em casa para seu crescimento integral.
Os pais não estão fazendo um favor aos filhos quando se esforçam para marcar presença em casa. É o contrário, os filhos é que têm o direito à presença dos pais. Este direito toca em pontos delicados como: separação dos pais, famílias monoparentais, ausência dos pais em casa. A pastoral familiar deve desenvolver e aprofundar esta questão que encontra muitos obstáculos na vida moderna. O assunto está no DA n.º 303.
2. A importância do esposo e do pai na família
Estamos habituados a falar da mãe e dos filhos na família. O DA n.º 459-463 focaliza a pessoa do pai, da figura paterna, ou seja, a importância do homem-pai na família, na educação dos filhos. Ele não é mero procriador, patriarca ou provedor, mas esposo, pai, amigo, discípulo, mestre. Como podemos ajudar os homens nessa missão? A figura do pai está mudando. Não é bom só fazer críticas, mas, indicar caminhos novos para a responsabilidade do homem em casa.
3. A importância da adoção
O amor fraterno se expressa de mil maneiras, mas a adoção é um gesto de profundo humanismo, sensibilidade, coragem e, portanto, uma alta forma de caridade, um gesto de fineza e profundidade humanitária. Não esqueçamos que Jesus foi filho adotivo de José, nós pelo batismo somos filhos adotivos do Pai e que a adoção é verdadeira geração cultural e espiritual de uma pessoa. O assunto está no DA n.º 347, l
4. Atenção especial com as pessoas viúvas
Desde o Antigo Testamento, Deus se revela protetor dos órfãos, das viúvas, dos estrangeiros e dos pobres. No Novo Testamento, a pastoral das pessoas viúvas era bem organizada (I Tm 5,3-16). Hoje, de modo geral, estas pessoas são atendidas pela pastoral da esperança, mas grande é o esquecimento, a gozação, a manipulação e o abandono a que estão relegadas. É hora de reavivarmos esta pastoral numa sociedade onde diariamente dezenas e centenas de pessoas passam a viver a condição de viúvas.
5. O Espírito Santo age nas situações irregulares
As famílias em situação irregular não são excluídas da Igreja e o Espírito Santo age nelas para que transmitam a fé aos filhos. A Paróquia deve chegar a todas as famílias e ajudá-las a serem missionárias. Os casais que vivem em situação irregular precisam receber a mensagem de Salvação e haja uma pastoral que os acompanhe (n.º437, j).
6. Acolher com misericórdia as mulheres que abortaram
Em primeiro lugar a Igreja deve manifestar especial ternura e solidariedade para com as mulheres que decidiram não abortar. Precisamos aprimorar nossos gestos de apoio, carinho e desvelo por estas mães. Porém, as que abortaram sejam acolhidas com misericórdia (DA n.º 469, g), sejam ajudadas a curar suas graves feridas e convidadas a ser defensoras da vida. O aborto faz duas vítimas: a criança e a mãe.
7. Assegurar a objeção de consciência (n.º 436)
A moral católica ensina que diante de uma lei injusta a pessoa tem o direto de discordar e de não observar a lei ou substituir a obrigação por outra, como por exemplo, quem em sã consciência não quer servir o exército, pode prestar sua colaboração em serviços sociais. Um médico que é contra o aborto não deve ser coagido a praticá-lo. Tem direito à objeção da consciência.
8. A observância da “coerência eucarística” (n.º 436)
Não podem receber a Eucaristia os governadores, legisladores e profissionais da saúde que propiciam o aborto. É uma questão de coerência, ou seja, como pode receber o “Pão da Vida” quem realiza o crime do aborto? A gravidade do aborto está expressa nesta disposição da doutrina católica como também na excomunhão.
9. Articulação entre pastoral familiar e movimentos (n.º 437,a)
Nestes assuntos precisamos ser muito firmes. Não podemos estar divididos, nem sermos competitivos no que diz respeito à evangelização da família. Pastoral Familiar e Movimentos de Casais são distintos, mas não opostos, pelo contrário, são complementares. Ambos são obra do Espírito Santo. Não é conveniente gastar energias em discórdias, competições, críticas. Todos temos um objetivo: ajudar e proteger a família.
10. A família e a transmissão da fé
Os primeiros catequistas são os pais. A oração e a espiritualidade familiar, a missa dominical, a catequese, a participação na comunidade são elementos básicos para que a família seja educadora e transmissora da fé. Mais ainda, seja também a incentivadora da vocação sacerdotal e religiosa. Nunca os pais devem desviar nem impor a vocação sacerdotal aos seus filhos, mas sim, motivá-los, incentivá-los, apoiá-los.
11. Oferecer casas e instituições de apoio à mulher (n.º 437, m)
As adolescentes grávidas, as mães solteiras, os lares incompletos, as crianças abandonadas sejam atendidas pela Pastoral Familiar. Criem-se centros de atendimento para estas pessoas. Notemos que esta atenção da Igreja para com a mulher grávida, a mãe solteira é uma atitude de coerência pastoral e carinho maternal. Não basta combater o aborto, é preciso envolver-se com quem mais sofre danos físicos, morais, sociais como é o caso aqui em pauta.
CONCLUSÃO
As questões que o Documento de Aparecida contempla têm muito a ver com a realidade das famílias nesta cultura em mudança e, ao mesmo tempo, requerem uma atenção especial por parte da Pastoral Familiar. São assuntos que precisamos aprofundar como é o caso do direito que os filhos têm à presença dos pais em casa, a adoção, a pastoral das pessoas viúvas, o pai e esposo em casa, a misericórdia para com quem praticou o aborto, a ação do Espírito Santo nas situações irregulares, uma pastoral de segunda união sempre em consonância com a Pastoral Familiar.
São assuntos novos, complexos e até polêmicos e evocam criatividade, imaginação e coragem pastoral. A resposta a tais situações exige cada vez mais a articulação entre pastoral familiar e movimentos, como também um esforço geral em relação ao setor pré-matrimonial que engloba namoro, encontro de noivos e preparação para o casamento |