Ó covardia do Rei Herodes ao mandar matar as crianças inocentes com medo que uma delas lhe usurpasse o reinado!
Pôde haver existido homem mais medroso, covarde e cruel na história da humanidade? O evangelho de Mateus se refere à intenção de Herodes de mandar matar o menino Jesus ao dizer aos três magos do oriente que lhe comunicassem aonde poderia encontrá-lo, “para prestar-lhe homenagem”. Ó ironia! Ó crueldade! Dias após, para não errar o alvo mandou matar todos os recém nascidos.
Os escritores romanos Plínio e Ricardo Josefo ao referir-se ao episódio relatam que pelo menos 28 crianças foram eliminadas ao mando do governador Herodes.
Nos indignamos imaginar um cafajeste de tão mala índole governar uma nação.
É fato histórico mas é também representativo: é o reflexo de muitas situações parecidas, anteriores, algumas posteriores e outras contemporâneas à história dos nossos povos. Que dizer dos nazis do holocausto? Que dizer dos regimes comunistas? Que dizer de militares de muitos países da América Latina durante as funestas ditaduras? Que dizer das torturas no Guantânamo e no Iraque? Não foram e não são menos covardes e desapiedadas. Tortura-se e elimina-se jovens, anciãos, adolescentes, estudantes, sindicalistas e religiosos, tudo em nome da segurança nacional.
Ontem e hoje os fatos se repetem. É o pecado da covardia que está presente desde a origem do ser humano.
O outro pecado original é o de querer ser como Deus. Isto é, de não admitir a própria finitude, o próprio erro. É a tendência de culpar sempre os outros pelos nossos erros. Adão foi o primeiro: “A mulher que me deste por companheira deu-me o fruto e, eu comi”. Eva foi a segunda: “A serpente me enganou e eu comi”. E logo, viemos nós para culpar os outros.
Os outros sempre são os culpados dos problemas. No dia a dia, as pessoas descarregam sua raiva sobre os outros. Porque o dia foi difícil, o marido é áspero com a esposa e essa reclama com os filhos, resta eles bater no cachorro ou chutar a porta.
A nível de país acontece o mesmo. Já dizia Ésquilo em uma de suas tragédias gregas: “ É bom ter um estrangeiro entre nós a quem culpar de nossos próprios males”.
A economia e a política americana estão em crise. A culpa cai sobre os imigrantes indocumentados, por enquanto, mas, se a economia não se recuperar todos os imigrantes se tornarão culpados. “ Eles vem usurpar nosso trabalho, ocupar os leitos dos hospitais, os bancos da escola, cometer delitos” e toda a ladainha que já conhecemos. E os inocentes continuam pagando a culpa da covardia e dos medos dos Herodes. Ninguém tem a ousadia de culpar os responsáveis pelos trilhões de dólares que são gastos mensalmente na estúpida guerra do Iraque. É mais fácil culpar os nossos vizinhos.
É tão fácil e tão covarde culpar os vizinhos que até brasileiros documentados são capazes por qualquer motivo de denunciar à polícia migratória os próprios compatriotas indocumentados. Gesto não menos repugnante que o de Herodes.
É indiscritível a experiência angustiante de quem em plena noite sente ingressar na própria casa cinco ou seis oficiais armados apontando o dedo nos olhos, mandando calar a boca, algemando o irmão, ou ser algemado e levado às escuras para uma prisão sem ter cometido nenhum delito exceto o de haver ingressado ao país de forma ilegal para poder ajudar economicamente a sua família! É repugnante a covardia e brutalidade dos homens medrosos de perder o reinado e que procuram soluções culpando os outros, e para não errar o alvo mandam eliminar todos os suspeitos recém nascidos. Terroristas e imigrantes foram misturados.
Em conseqüência estamos vendo pessoas depressivas, angustiadas e truncadas no seu legítimo sonho de um futuro mais digno.
É imperativo sermos solidários nesses momentos tão difíceis para os imigrantes indocumentados neste país dos sonhos truncados. Afinal há uma lei que nenhum Constitucionalista ainda escreveu, mas que Deus deixou impressa no coração das pessoas de boa vontade: é a lei da solidariedade.
É imperativo também rezar a Jesus que se encarnou para carregar as nossas dolências para que alguém faça parar esse atropelo aos direitos humanos.
Que este ano de 2008 nos encontre mais unidos e solidários e que Deus tenha piedade dos Herodes. Amém.
Pe. Scaravelli
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