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Dons e Carismas
O estilista, a Igreja Católica e o sexo PDF Imprimir E-mail
Por Dom Antônio Augusto Dias Duarte   
09 de dezembro de 2005
Quando o dicionário Aurélio da língua portuguesa apresenta os dois sinônimos da palavra estilista começa falando da pessoa que escreve com estilo apurado, elegante, para só depois mencionar o segundo, isto é, a pessoa que se ocupa em estudar e adaptar novas soluções em matéria de estilo.
O Globo publicou o artigo do estilista Carlos Tufvensson no último dia 3 de dezembro sobre o Dia Mundial da luta contra a Aids. Ele tem um estilo apurado, elegante, revelador da sua cultura acima da média.

Entretanto, relacionando o seu estilo de linguagem com o outro sentido referido no Aurélio devo concluir que pecou pela falta de um estudo mais orientado sobre a História da Igreja Católica e de um conhecimento mais atualizado das publicações da comunidade científica internacional citada por ele no artigo.

Comecemos pelo título que encabeça o seu artigo: A Igreja autista é contra o sexo. Ser contra alguma coisa ou contra alguém supõe conhecer que é ou quem é este tão terrível perigo.

Ser contra o sexo é um rótulo impropriamente colocado sobre a imagem da Igreja Católica, já que revela um desconhecimento dos Catecismos publicados desde o século XVI até hoje e, mais concretamente a recente edição aprovada pelo Papa Bento XVI, que é o Compêndio do Catecismo da Igreja Católica.

O que é o sexo ou quem é o homem e a mulher, segundo os ensinamentos da Igreja Católica, está sintetizado num dos parágrafos desse Compêndio: “Deus criou o ser humano, homem e mulher, com igual dignidade pessoal, e inscreveu nele a vocação do amor e da comunhão. Cabe a cada um aceitar a própria identidade sexual, reconhecendo sua importância para a pessoa toda, a especificidade e a complementaridade”.

Na defesa dessa igual dignidade e dessa identidade sexual houve, em certos momentos históricos, uma posição bem realista e avançada da Igreja. Não me atreverei a ser professor de História para o nosso estilista, mas não me custa nada apresentar-lhe um descendente da família Real da Pérsia, Mani, nascido em 14 de abril de 216. Desde a sua juventude este personagem histórico – fundador do maniqueísmo – foi educado numa busca ansiosa da pureza, por meio da fuga da matéria, considerada fonte de todo mal e de toda contaminação moral.

O ponto de partida de sua doutrina era o dualismo ou o duplo princípio eterno: o do bem e o do mal. As conseqüências práticas desse dualismo foram catastróficas para a humanidade. O selo da boca (abstinência perpétua de vinho, carne e qualquer palavra impura), junto com o selo do ventre (abstinência absoluta do sexo) e mais o selo da mão (aversão a qualquer trabalho manual) selariam a felicidade e os prazeres da vida. Santo Agostinho, quando jovem, foi um dos discípulos dessa doutrina, mas nunca superou o grau dos chamados auditores ou iniciadores, e antes da sua conversão ao catolicismo não foi certamente um adepto do selo do ventre, como ele mesmo narrou no seu livro Confissões.

Uma vez convertido, sendo bispo da Igreja Católica, procurou combater esse erro maniqueu e defendeu ardorosamente os valores positivos presentes na sexualidade humana e no amor matrimonial.

Quando em Albi, cidade italiana, no século XII, ressurgiu tal erro, através da heresia dos albigenses, difundiu-se então o conceito de que o casamento era uma invenção satânica. Tal afirmação era tão contrária à religião católica e à sociedade, que a Igreja mais uma vez saiu em defesa do sexo e da união entre o homem e a mulher. Grandes homens destacaram-se nesse período histórico: São Bernardo, o Papa Inocêncio III e Domingos de Gusmão, fundador dos dominicanos.


Mas recentemente a voz grave e pausada de João Paulo II ouviu-se, em grande estilo, e entre outros ensinamentos sobre o sexo afirmou o seguinte:
“O ser humano é chamado ao amor e ao dom de si na sua unidade corpóreo-espiritual. Feminilidade e masculinidade são dons complementares, pelo que a sexualidade humana é parte integrante da capacidade concreta de amor que Deus inscreveu no homem e na mulher.

O corpo humano, com o seu sexo (...) não é somente fonte de fecundidade e de procriação (...) mas encerra (...) a capacidade de exprimir o amor precisamente pelo qual o homem-pessoa se torna dom (...) A sexualidade humana é, portanto, um Bem!”.



O “autismo da Igreja” pode ser um reflexo do “autismo” de certas mentes que ainda estão desligadas da realidade histórica e que criam, mentalmente, um mundo eclesial imaginário. Mas o articulista-estilista dizia que os bispos e os padres da Igreja Católica seriam os seus diplomatas que estariam travando uma “guerra santa” contra camisinha, usando uma arma: a mensagem de que a camisinha não é eficaz na luta contra a disseminação da Aids.

Gostaria nesse momento de voltar ao nosso dicionário Aurélio e recordar aos leitores o segundo sentido da palavra estilista: “pessoa que se ocupa em estudar e adaptar novas soluções em matéria de estilo”. Esta pessoa não é jamais a Igreja Católica, e sim a comunidade científica internacional.

“Os diplomatas da Igreja” têm que reconhecer, com sinceridade e humildade, que eles não têm o direito de usar tal arma, já que não lhes pertence. “Os diplomatas da Igreja” estão desarmados pela comunidade científica internacional que tem no seu punho a mais moderna arma, que é a pesquisa sobre a Aids e sua disseminação pelo mundo.

Aliás o descobridor do vírus HIV, Luc Montaguier, não teve medo de empunhar esta arma ao dizer como se deve combater esta epidemia: “São necessárias campanhas contra práticas sexuais contrárias à natureza biológica do homem. E, sobretudo, há que educar a juventude contra o risco da promiscuidade”.


Outro grupo de “diplomatas da comunidade científica” é o famoso Food and Drug Administration (FDA), entidade do governo dos Estados Unidos encarregada de aprovar medicamentos. Estudanto 430 marcas e 102.000 preservativos, forneceu este resultado que é para ser conhecido por quem busca realmente soluções novas para combater a Aids. “Aceitando esta taxa de defeitos – 12% das marcas americanas e 21% das marcas estrangeiras, ou seja, próximo de 140 marcas do total estudado – a probabilidade de falha no caso do preservativo seria de 20,8% anual se mantivessem relações uma vez por semana de 41,6% se fossem duas vezes por semana”.


Logicamente o descobridor do vírus do HIV e os pesquisadores da FDA não se pronunciaram em nome da Igreja Católica, mas, pelo contrário, baseando-se somente em resultados orientados por um estudo científico sério e consciencioso em busca de novas soluções para esta terrível doença e, sobretudo, tiveram a coragem de dizer a verdade.



+ Dom Antônio Augusto Dias Duarte
Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro
Doutor em Medicina pela Faculdade de Medicina da USP
Doutor em Teologia Moral pela Universidade de Navarra



Em resposta ao artigo publicado dia 03/12/2005 escrito pelo estilista Carlos Tufvensson no jornal O Globo.

Fonte: CNBB
Última Atualização ( 09 de dezembro de 2005 )
 
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