A Transfiguração

Pe Scaravelli, c.s.

Todos conhecemos as expressões: ” Subir ao céu”, : Deus está no alto dos céus” ou “descer ao inferno” ou “ao abismo do inferno”. Universalmente associamos céu com altura e inferno com abismo. É um convencionalismo, uma maneira de entender o céu e o inferno numa concepção que já existia entre os povos antigos, inclusive, entre os hebreus. Para os gregos, os deuses moravam no Monte Olimpo (onde as olimpíadas tiveram início). Muitas passagens bíblicas nos falam das manifestações de Deus no alto das montanhas: no Monte Sinai Deus entregou as tábuas da lei a Moisés; no Monte Horeb Moisés e Elias ouviram a voz de Deus, no Monte Calvário Jesus foi crucificado, no Monte Tabor Jesus se transfigurou; e quando Jesus queria orar, se retirava ao monte ou ao deserto. Daí a nossa concepção de que Deus está no alto, e quanto mais alto, mais perto de Deus.

No evangelho do segundo domingo de quaresma, Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João e sobe ao Monte Tabor e ali se transfigura, isto é, se mostra em sua glória, antecipando assim como será a glória do céu para quem ressuscitar com Cristo.

Logo após a transfiguração, mesmo contra o desejo de Pedro que queria ficar ali e fazer  três tendas, Jesus desce do  monte e comunica aos discípulos que deveria ir a Jerusalém para subir o Monte Calvário ao encontro da cruz. Ele quis prevenir os apóstolos  que não deveriam se ilusionar a respeito da sua missão, porque iriam encontrar dificuldades  e sofrimentos. Ninguém alcança a ressurreição sem antes passar pelo calvário.

A Deus o encontramos na glória do monte Tabor assim como o encontramos no sofrimento do monte Calvário.

O sofrimento faz parte da vida do ser humano. Não existe e e nem existiu pessoa alguma no mundo que não tenha conhecido a dor e o sofrimento. Há sim pessoas privilegiadas que nascem em berço esplêndido e gozam de boa saúde, muito dinheiro, família, muitos amigos; no entanto, a perfeição e a felicidade são apenas aparentes, porque todo ser humano sofre a fragilidade da natureza: angústia, vazio interior, solidão, saudades, perdas, medos.

Lembro da publicação de uma pesquisa realizada entre pessoas da elite que possuíam entre um milhão e 10 milhões de dólares. A pesquisa revelava que todas elas sentiam os mesmos medos que sentem as pessoas da classe trabalhadora: medo dos filhos irem pelo caminho das drogas, insegurança frente ao futuro, medo das doenças, da solidão, da morte.

O certo é que ninguém gosta de sofrer. Desde a origem o ser humano se resistiu a aceitar as limitações, entre elas o sofrimento. Adão e Eva quiseram conhecer e ser como Deus e sucumbiram. Jesus venceu essas tentações.

Para entrar na glória de Deus, para ser transfigurados como Jesus, se necessita trilhar o caminho da cruz, assumindo a vida como ela realmente é. “Quem quiser ser meu discípulo tome sua cruz e siga-me”, O caminho do cristão é o caminho da cruz.

Ser cristão então não significa ser privilegiado a nível humano, isento de sofrimento, propício à prosperidade só porque acredita em Jesus. Evidentemente, quem reza e ama a Deus alcança muitas bênçãos, muitas graças, mas nunca deixa de ser um ser humano exposto às fragilidades da natureza humana.

Há pregadores católicos e evangélicos que em nome de Jesus fazem falsas promessas que basta crer e tudo se soluciona, promovendo uma religião mágica. Mas isso é uma distorção da doutrina cristã.

 A fé e a intimidade de Abrahão com Deus como vemos na primeira leitura, não o livrou das dificuldades. A fé não o isentou da natureza humana. A fé o ajudou sim a nunca desistir e ser um vencedor.

 A fé em Jesus Cristo não nos transforma em anjos, mas sim em bons cristãos e discípulos de Jesus. Não nos afasta das dores e sofrimentos da vida, mas nos enche de valores para enfrentá-los e suportá-los com dignidade. 

 A fé em Jesus nos torna capazes de enfrentar com dignidade o caminho ao Calvário para alegrar-nos na transfiguração do monte Tabor.

Quaresma é tempo propício para tomar consciência que somos homens e mulheres em caminho do Monte Tabor passando pelo Monte Calvário.

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