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Roteiro homilético: 13 de Agosto (19º DOMINGO DO TEMPO COMUM)

“Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”

I. INTRODUÇÃO GERAL

A liturgia da Palavra deste domingo nos oferece rica reflexão acerca do reconhecimento da presença de Deus na vida da comunidade. Seus caminhos são sempre imprevisíveis! Somos desafiados a superar antigas convicções – o Deus das manifestações grandiosas e temíveis, dos fenômenos violentos da natureza – e a nos abrirmos a novas experiências, como a do murmúrio da brisa suave. Em Jesus, Deus se manifesta como aquele que acompanha a comunidade em suas tribulações e está pronto para salvá-la, quando esta pede ajuda. É o Deus que quer salvar a todos, também aqueles que se recusam a reconhecê-lo em seu Filho, Jesus.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (1Rs 19,9a.11-13a): Deus não está na tempestade

Elias, o grande profeta do combate à idolatria, por causa de sua luta contra os sacerdotes de Baal, é perseguido por Jezabel e foge para o Horeb, monte no qual Moisés experimentou a presença de Deus (Ex 19,16ss; 33,18-23). Tradicionalmente, a teofania era acompanhada por elementos da natureza. No entanto, Deus fala a Elias não nos elementos violentos da natureza – tempestade, terremoto, fogo –, mas no murmúrio de uma brisa leve.

Essa experiência é muito significativa, sobretudo se olharmos para a ação de Elias, que invocou o fogo do céu sobre os sacerdotes de Baal, no monte Carmelo. No Horeb, Deus o faz experimentar que nem sempre o zelo é vitorioso nem a violência faz parte de sua vocação, mas sim o serviço paciente. Para isso, é preciso aprender que Deus não está necessariamente nas coisas grandiosas ou violentas, mas na leveza de uma brisa que passa, muitas vezes, despercebida. É a partir dessa percepção de Deus que Elias recebe nova missão.

A narrativa de Elias nos convida a aguçar nossa percepção de Deus, que não está necessariamente nas coisas grandiosas, mas naquilo que significa paz e refrigério – algo que urge em nossos dias, em que tanto se destaca, como “manifestação” de Deus, o suntuoso, o barulhento e o “maravilhoso”. Se a experiência religiosa não vier acompanhada de nenhuma “manifestação prodigiosa”, a impressão é que Deus aí não está. Uma religiosidade “mágica” facilmente acredita que Deus se manifesta nos fenômenos que simbolizam força, que causam temor e espanto. Não é isso, com efeito, que nos revela Jesus Cristo! Diante dos apóstolos, que estavam lutando contra o vento, no barco, Deus se manifesta em Cristo, acalmando a tempestade (Mt 14,22-33).

2. II leitura (Rm 9,1-5): Preocupação de Paulo com o destino de Israel

Paulo revela nesse trecho sua preocupação com o destino de seu povo, os judeus. Sendo eles os primeiros destinatários da promessa divina, correm o risco de ficar de fora da salvação por não aceitarem Jesus como Messias. O apóstolo ama seu povo com amor profundo e até renunciaria à própria salvação se, com isso, seus irmãos judeus tivessem a salvação (v. 3). Em vários momentos da história, Deus manifestou-se ao seu povo, prometeu-lhe libertação e salvação. Só a ele Deus deu seu nome; só a ele chamou de filho; só a ele se revelou no Sinai, na tenda do encontro, no templo, com toda a sua glória (v. 4). Paulo lembra que é desse povo que descende, quanto à sua humanidade, o Cristo (v. 5). No entanto, os judeus recusaram a salvação oferecida em Jesus Cristo. Será então que Deus falhou em suas promessas? Para Paulo, Deus é fiel às suas promessas; tem seus planos, sua ação é absolutamente livre. O plano de salvação, mesmo aberto aos gentios, vale também para os judeus. O que se espera é que a misericórdia de Deus seja derramada também sobre Israel.

3. Evangelho (Mt 14,22-33): “Homem fraco na fé, por que duvidaste?”

Após a multiplicação dos pães, no qual os discípulos participam da obra de Cristo, Jesus os envia para a outra margem do lago, enquanto se retira para orar, no monte. Esse “monte” nos remete ao Horeb/Sinai, lugar da revelação de Deus a Moisés, onde este é instruído; Elias também vai ao monte, onde encontra o Senhor no murmúrio de uma brisa suave (1Rs 19,12). No Evangelho, diversas vezes Jesus se retira para orar. Isso quer dizer que toda a experiência de Jesus, seus ensinamentos e ações são fundados numa relação íntima com o Pai.

Depois desse tempo de solidão, pela madrugada, Jesus vai ao encontro dos discípulos, andando sobre as águas. Estes se encontram em dificuldades, pois a barca é agitada pelas ondas, e, ao vê-lo, se assustam. Jesus se identifica mediante a expressão “sou eu”, que reproduz a fórmula com que Deus se revela a Moisés, na sarça ardente (Ex 3,14). Pedro, movido pelo ímpeto, pede para ir ao encontro de Jesus, caminhando sobre as águas, mas duvida e começa a afundar. É salvo por Jesus, que lhe repreende a falta de fé. Ao chegarem à barca, os ventos cessam.

O quadro refere-se, certamente, à situação da comunidade a que Mateus destina seu Evangelho, agitada por dificuldades e perseguição (Mt 5,11) e dotada de uma fé fraca, superficial, insuficiente para resistir aos embates do cotidiano. O próprio Pedro, apresentado como o tipo do discípulo, crê no Senhor, mas com fé tímida e insuficiente. A dúvida de Pedro significa que ele está dividido: por um lado, acredita no poder de Jesus, mas, por outro, teme as ondas do mar. Por isso, afunda nas águas. O Senhor, porém, está presente para salvar sua comunidade, embora muitas vezes sua presença não seja percebida. Confiar nele é condição indispensável para que a comunidade não seja submergida e abatida pelas forças adversas, pela oposição e resistência do mundo ao projeto de Deus.

Nessa catequese mateana, a comunidade é instada a assumir uma atitude de confiança corajosa e suplicante naquele que conduz sua Igreja. Jesus incentiva seus discípulos a ter coragem e a manter viva a fé em meio às tribulações; manter a visão centrada no Cristo, e não nas dificuldades que enfrentam em sua missão de anunciar o Evangelho. Toda e qualquer dificuldade pode ser enfrentada quando existe na comunidade a convicção de que o Senhor a acompanha nas tribulações.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Deus sempre nos surpreende! Sua transcendência nos impede de enquadrá-lo em nossa própria medida. Por isso, nem sempre o reconhecemos quando se manifesta no inesperado ou no inadequado aos nossos padrões. É preciso aguçar nossa percepção mediante o exercício contínuo dos nossos sentidos – escutar, ver, sentir –, em conexão com o mestre Jesus, que nos ensina a retirar-nos na solidão da intimidade com o Pai.

A preocupação que Paulo apresenta em sua carta quanto ao destino dos israelitas que não acolheram Jesus deveria nos inquietar. Muitos de nós vivemos nossa fé cristã indiferentes àqueles que, apesar de batizados, vivem uma vida afastada dos valores evangélicos, indiferentes à vida plena que o Senhor lhes quer dar. Não seria nossa responsabilidade testemunhar a essas pessoas os valores em que acreditamos e que conduzem à vida plena?

A comunidade cristã enfrenta e sempre enfrentou, no decorrer da história, adversidades em sua missão de anunciar o Evangelho: perseguição, sofrimentos, dificuldades, frustração, desânimo etc. Jesus, porém, está sempre presente, escuta seu clamor e lhe estende a mão para salvá-la. Daí a importância da fé, de ter confiança em Jesus, de saber que ele não abandona os seus porque é o Emanuel, o Deus-conosco. As adversidades e provações, na vida do discípulo e da comunidade, também podem ser ocasiões propícias para o crescimento da fé, à medida que aprofundam sua relação com Jesus, o Filho de Deus.

Ir. Márcia Eloi Rodrigues é religiosa do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Possui graduação, mestrado e doutorado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – Faje (Belo Horizonte-MG). É professora de Sagrada Escritura. E-mail: ir.marcianj@gmail.com

Fonte: Vida Pastoral

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