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Roteiro homilético: 29 de Março (PAIXÃO SENHOR)

A cruz de Jesus é a hora da glória!

I. INTRODUÇÃO GERAL

“A condição humana é a paixão de Cristo”, escreveu Clarice Lispector na sua obra A paixão segundo G. H. Toda paixão vem acompanhada de sofrimento! Na cruz de Jesus Cristo se encontra a dor daquele que “amou até o fim” (Jo 13,1), com a dor de toda a humanidade. Cruz e crucificado, cruzes e crucificados são a gramática desta liturgia, mergulhada no silêncio, na ausência, no trauma das vítimas.

Quando tudo parece ter fim, a profecia de Isaías e a carta aos Hebreus, com fios de sofrimento, ajudam a tecer um feixe de luz: “Ei-lo, o meu servo será bem-sucedido; sua ascensão será ao mais alto grau” (Is 52,13); “Cristo, nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte. E foi atendido, por causa da sua entrega a Deus” (Hb 5,7). Se a paixão de Cristo nos fere profundamente, a cruz revela uma novidade infinitamente maior, pois consiste na “hora da glória”.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Is 52,13-53,12)

Isaías desenha o quadro do misterioso Servo de Javé, também chamado de Servo sofredor. Trata-se do quarto poema. A dificuldade de descobrir a identidade desse personagem abre a possibilidade de lê-lo à luz do sofrimento do povo.

A leitura é aberta com um oráculo pronunciado por Javé a respeito do Servo: “tão desfigurado ele estava, que não parecia ser um homem” (53,14). Segue-se uma espécie de lamentação das pessoas ao seu respeito: “Foi maltratado e submeteu-se, não abriu a boca; como cordeiro levado ao matadouro ou como ovelha diante dos que a tosquiam, ele não abriu a boca” (53,7). Por fim, Javé anuncia a glorificação: “sendo contado como um malfeitor; ele, na verdade, resgatava o pecado de todos e intercedia em favor dos pecadores” (53,12).

Chama a atenção o fato de que o Servo se mantém sempre em silêncio, não obstante sua condição ultrajada. O quadro não aponta a culpa do sofredor, ou seja, não se trata de retribuição pelos seus pecados. De fato, a teologia da retribuição – que opera segundo a ideia de que cada um recebe o que merece – entra em crise, porque nada pode condenar esse Servo. Ele sofre porque sofre, e sofre pelos pecados que outros cometeram: “ele não praticou o mal nem se encontrou falsidade em suas palavras” (13,9). O Servo de Javé é uma fotografia da realidade de sofrimento de tantas pessoas que não encontram em Deus nenhuma neutralidade.

2. II leitura (Hb 4,14-16; 5,7-9)

A carta aos Hebreus é uma grande homilia sobre o sacerdócio de Cristo. Com base nessa chave, é feita uma releitura do sistema de sacrifício da Antiga Aliança à luz do sacrifício de Jesus Cristo, “capaz de se compadecer das nossas fraquezas” (4,15). Por assumir toda a condição humana, até a morte de cruz, ele se revela o sumo sacerdote capaz de se identificar com a vida das pessoas, especialmente das vítimas.

Os sumos sacerdotes da Antiga Aliança utilizavam o sangue dos sacrifícios como oferta a Deus no templo. O novo e eterno sacerdote, Jesus Cristo, ofereceu-se a si mesmo! Já não o sangue das vítimas, mas seu próprio sangue é o sinal da nossa redenção: “na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (5,9).

“Orações, súplicas, clamores e lágrimas” (5,7) são uma gramática profunda que apresenta a humanidade de Jesus Cristo. É possível sempre atualizar essa mesma condição de sofrimento e de fé em muitas pessoas que, não obstante suas cruzes, se inserem no seguimento do Senhor, se comprometem a fazer o bem, na esperança e na coragem de viver dias melhores.

3. Evangelho (Jo 18,1-19,42)

A criação de Deus guarda a imagem do jardim, segundo o relato do Gênesis: “Javé Deus plantou um jardim em Éden, no oriente, e aí colocou o homem que havia modelado” (2,8). A história, no entanto, não andou muito bem e, desde o início, o mundo criado viveu as inúmeras contradições e infidelidades ao Criador.

O Evangelho de João tece um “novo jardim” ou uma “nova criação” na paixão, morte e ressurreição de Jesus. O grande relato que toma os dois capítulos do Evangelho deste dia começa e conclui com a imagem do jardim. Há, portanto, uma grande teologia da criação no mistério de cada palavra. Deus está recriando a humanidade no seu Filho amado!

Depois da traição de Judas, seguida da prisão, da apresentação e do interrogatório diante de Anás, Caifás e Pilatos, Jesus guardou longo silêncio, respondendo a poucas perguntas: “Eu falei às claras ao mundo”, foi uma das suas falas, acompanhada de uma bofetada do guarda (18,20-22). A verdade anunciada por Jesus durante toda a sua vida não era uma teoria, uma doutrina, e sim uma relação com Deus tão profunda, que o levava a chamá-lo de Pai. O Deus próximo, misericordioso, amoroso era potente demais para os poderosos e os tribunais, que instrumentalizavam sua prática e veiculavam outra imagem de Deus, punitivo e justiceiro.

Sobre a verdade, de fato, há longo diálogo entre Pilatos e Jesus, guardado apenas na tradição joanina, o qual foi concluído com a sentença de condenação: “Eis o homem” (19,5), apontando para Jesus, que carregava uma coroa de espinhos e um manto vermelho. Neste “eis o homem” pode-se ler “eis a humanidade” – ultrajada, maltratada, negociada como a liberdade de Barrabás, solitária. “Crucifica-o, crucifica-o” (19,6) eram as vozes que se levantavam. Jesus, carregando pesada cruz, caminhou em direção ao calvário. A “hora de Jesus”, anunciada pelo Evangelho de João desde o início, encontrou o ápice na cruz: “Tudo está consumado” (19,30). A “hora de Jesus” é a hora da glória, a hora em que Deus, pelo Espírito, “faz novas todas as coisas” (Ap 21,5). Aonde parecia tudo escurecer e desaparecer, veio um sopro que reorganiza e recria o mundo.

Há uma prece de Charles de Foucauld, “Oração do abandono”, que nos ajuda a rezar e meditar a cena do calvário, a entrega de Jesus, e viver nossos sofrimentos: “Meu Pai, em vós me abandono. Fazei de mim o que quiserdes! O que de mim fizerdes, eu vos agradeço. Estou pronto para tudo, aceito tudo, contanto que vossa vontade se faça em mim e em todas as vossas criaturas. Não quero outra coisa, meu Deus. Entrego a minha vida em vossas mãos”.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

A paixão de Jesus sempre apresenta à humanidade o sofrimento das vítimas. É verdade que não se pode resolver todas as injustiças do mundo, mas a celebração da Paixão é convite a assumir o compromisso com alguns gestos de humildade e reconciliação. O primeiro, talvez, seja reconhecer que nosso estilo de vida pode fazer pesar ainda mais as cruzes de muitas pessoas e abrir ainda mais suas feridas. Reconhecer as estruturas de morte e denunciá-las é outro compromisso que nasce da cruz de Jesus.

A imagem de algumas mulheres e do discípulo amado, aos pés da cruz, antecipa o verbo da ressurreição: “estavam de pé” (Jo 19,25). Manter-se de pé é atitude grandiosa, de disposição em seguir em frente, de encontrar os feixes de luz para iluminar o caminho. Não foram poucas as vezes em que Jesus “ergueu as pessoas”. Na “hora da glória”, ele é erguido pelo Pai do domínio da morte. Para permanecerem de pé, o segredo das mulheres e do discípulo amado foi permanecerem perto da cruz, perto de Jesus. A tentação das fugas, das máscaras, das desculpas, das reclamações, da indiferença exige o discernimento de não fugir da realidade da vida, de enfrentar as contradições com os olhos fixos em Jesus Cristo, que, naturalmente, conduz cada olhar para o lugar das vítimas do mundo e para a redenção de todas as coisas.

Maicon André Malacarne* é presbítero da diocese de Erexim-RS. Possui mestrado em Teologia Moral pela Pontifícia Academia Alfonsiana (Roma), onde atualmente é doutorando na mesma área. É especialista em Juventude no Mundo Contemporâneo pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje – Belo Horizonte-MG), formado em Filosofia pelo Instituto de Filosofia Berthier (Ifibe – Passo Fundo-RS) e em Teologia pela Itepa Faculdades (Passo Fundo-RS). É aluno de doutorado em Teologia Moral da Pontifícia Academia Alfonsiana (Roma). E-mail: maiconmalacarne@gmail.com

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