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Roteiro homilético: 30 de Julho (16º DOMINGO DO TEMPO COMUM)

Investir tudo no Reino!

I. INTRODUÇÃO GERAL

A liturgia deste domingo nos apresenta o Reino em parábolas com a finalidade de incentivar os discípulos a investir tudo o que têm no maior de todos os tesouros: Jesus Cristo. Nele todos são predestinados a viver a vida divina, desejada por Deus desde toda a eternidade. No entanto, é necessário saber escolher com sabedoria, discernir em que realmente vale a pena investir a vida: nos bens que passam ou naquilo que é eterno.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS
1. I leitura (1Rs 3,5.7-12): Salomão não pede riqueza, mas sabedoria

No começo de seu reinado, Salomão pede a Deus sabedoria, isto é, o dom de julgar e decidir acertadamente, para bem governar seu povo. O próprio fato de reconhecer tal necessidade e não pedir vida longa nem riqueza já mostra sua sabedoria. Por isso, sua prece é ouvida e, além da sabedoria, Deus lhe concede coisas menos importantes, como riqueza, fama e longa vida.

O pedido de Salomão é modelo de espiritualidade e humildade, pois almeja um coração cheio de discernimento. O coração, na concepção bíblica, é o centro da percepção e do juízo pessoal. Discernimento significa, na raiz, “ouvir”. Portanto, para bem governar seu povo, um rei precisa ter habilidade para ouvir, antes de formar um juízo e, assim, “ministrar a justiça” (v. 11). O pedido de Salomão agradou a Deus, que lhe concedeu um coração sábio e capaz de discernir. Essa sabedoria não diz respeito a conhecimento filosófico, mas sim à sabedoria prática, que torna alguém capaz de avaliar pessoas e situações adversas e, dessa forma, agir com justiça.

2. II leitura (Rm 8,28-30): Predestinados a ser conformes à imagem do Filho

Acolher o Evangelho de Jesus Cristo é experimentar o chamado de Deus a participar de sua obra redentora. Em Jesus, todos somos predestinados à filiação divina, objeto de amorosa eleição, pois a salvação é dom gratuito de Deus. Por amor, o Pai nos insere no seu projeto eterno, centrado em Cristo: criar uma humanidade nova, conforme “à imagem de seu Filho, para que fosse o primogênito de muitos irmãos” (v. 29). O cristão tem consciência dessa eleição. Mesmo com as ameaças e dificuldades do mundo presente, em meio às perseguições e hostilidades, a fidelidade divina nos oferece plena garantia. Podemos confiar em Deus. A certeza da fé é que “tudo concorre para bem daqueles que amam a Deus” (v. 28). A salvação é garantida aos seus eleitos, chamados por ele a participar da vida divina em Jesus. Enquanto isso, o projeto eterno do Pai realiza-se na história de forma parcial e imperfeita, até o cumprimento final, com a glorificação dos seus filhos e filhas. Essa confiante certeza apoia-se sobre a fidelidade de Deus a Jesus – por meio de quem realiza seu projeto salvador – e aos seus irmãos e irmãs, a todos os que acolheram o Evangelho da salvação.

3. Evangelho (Mt 13,44-52): O tesouro do Reino de Deus

No Evangelho, Jesus continua ensinando em parábolas sobre o mistério do Reino. As duas primeiras aludem a dois caminhos para alguém chegar ao Reino dos Céus. A primeira parábola, a do tesouro, fala-nos da experiência de encontro do Reino, que irrompe na vida sem preparação. Isso acontece, muitas vezes, em virtude de uma experiência de sofrimento ou perdão, na qual a pessoa é tocada profundamente. Tal experiência requer dela uma decisão radical, a ponto de tudo abandonar para participar do Reino. A segunda, a da pérola, já nos apresenta a entrada no Reino após longa busca, motivada pelo desejo sincero de mudar de vida. Muitas vezes, são pessoas que almejam algo mais em sua vida, que vivem numa busca constante de algo que as preencha. Quando fazem a experiência de encontro com Jesus, assumem com imensa alegria o projeto do Reino, abrindo-se à bondade e à solidariedade da vida em Cristo.

A última parábola, a das redes, ensina-nos que não basta ser pescado para o Reino, é preciso decidir-se por ele – ou seja, por Jesus, pois nele o Reino se torna presente e atuante, assim como em quem o segue, apostando nele a própria vida. Quem verdadeiramente descobre em Jesus seu verdadeiro tesouro adquire a sabedoria de viver uma vida em harmonia com Deus, consigo mesmo e com os outros. Encontra, pois, sentido na vida, no amor a Deus e aos irmãos e irmãs.

A pergunta “compreendeis?”, dirigida aos discípulos que somos nós, solicita abertura sincera para acolher todas as palavras. Significa que o discípulo bem instruído no Reino será capaz de tirar do tesouro coisas “novas e velhas”, ou seja, será capaz de reler as tradições antigas à luz do novo ensinamento de Jesus. Em outras palavras, o cristão não é um propagador de doutrinas engessadas, mas “mestre” capaz de adequar a linguagem e o ensinamento da fé aos novos tempos, sem, contudo, perder sua essência.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Numa sociedade de consumo, a pessoa vale pelo que tem, por seu status, conexões e riqueza. Muitos “seguem” tais pessoas como “gurus” espirituais, em busca de encontrar satisfação pessoal imediata, nos bens materiais e na notoriedade. Essa busca desenfreada por notoriedade não seria ânsia vã de preencher uma existência sem sentido? O tema central desta liturgia dominical é o investimento da pessoa naquilo que é seu valor supremo. Acolher o Reino significa acolher Jesus, sua vida e ensinamentos. Significa estarmos dispostos a investir “tudo”, o que temos e somos, numa pessoa concreta, Jesus Cristo, como o mais precioso de todos os bens. E, a exemplo de Jesus, viver uma existência em prol dos irmãos e irmãs.

Quanto à predestinação, não significa que Deus escolheu de antemão um grupo de “santos”, uma categoria privilegiada de cristãos, para participar de seu projeto de salvação. O chamado de Deus dirige-se a todos os seres humanos, pois todos são vocacionados a responder ao desígnio amoroso de Deus. Contudo, é pela fé, pela adesão a Jesus, o primogênito dentre os mortos, que o cristão assume efetivamente essa vocação em sua vida.

Ir. Márcia Eloi Rodrigues é religiosa do Instituto Religioso Nova Jerusalém. Possui graduação, mestrado e doutorado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – Faje (Belo Horizonte-MG). É professora de Sagrada Escritura. E-mail: ir.marcianj@gmail.com

Fonte: Vida Pastoral

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