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Roteiro homilético: EPIFANIA DO SENHOR

Jesus é o Filho de Deus

I. INTRODUÇÃO GERAL

Na solenidade da Epifania do Senhor, somos chamados a contemplar Jesus como “o Senhor” que vem nos salvar.
Na primeira leitura, ouvimos Isaías, que busca recuperar a esperança dos exilados para reconstruírem juntos Jerusalém: a luz chegou para seu povo que vivia na escuridão. O Evangelho nos faz voltar o olhar para a manjedoura de Jesus e, em seu Natal, contemplar o amor de Deus por nossa humanidade. Com os magos, somos animados a oferecer a Cristo ouro, incenso e mirra, bem como ofertar aos que sofrem a esperança, o amor e a paz. Na segunda leitura, Paulo convida os irmãos da comunidade de Éfeso a admitir a todos “no corpo de Cristo”, que é a Igreja. Todos são chamados a crer na pessoa de Jesus Cristo e a ver nele a salvação.

II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Is 60,1-6)

Isaías, em seu terceiro livro, convida todos os ouvintes e leitores a contemplar a glória de Jerusalém. Essa passagem está ligada a um contexto de pós-exílio, no qual o profeta, como porta-voz de Deus, repete a mensagem consoladora do Senhor à comunidade que retornou da Babilônia, cuja fé e esperança devem ser sustentadas. A princípio, no v. 1, o profeta convida a cidade de Jerusalém a pôr-se de pé – que é o sentido de prontidão para servir –, “porque tua luz é chegada, a glória do Senhor raia sobre ti”. A terra, contudo, está coberta de trevas, alerta o profeta, e a escuridão envolve as nações. Sobre Israel, levanta-se o Senhor, Adonai (v. 2). Sob sua luz, caminharão as nações e os reis no clarão do sol nascente (v. 3).

O profeta, no v. 4, pede que Jerusalém erga os olhos e veja que todos se reúnem e vêm até ela. A imagem é dos filhos que vêm de longe, e as filhas carregadas em suas ancas (v. 4). Tal imagem mostra Jerusalém como mãe que cuida, que dá de si para a vida dos filhos, que os ensina a caminhar. É um tempo novo, como atesta o v. 5, pois as riquezas virão de além-mar, virão para ela os tesouros das nações. Uma horda de camelos inundará a cidade, os camelinhos de Madiã e Efa, todos os de Sabá: trarão ouro e incenso, proclamando os louvores do Senhor (v. 6). Tais ofertas aludem à visita ao Rei-Messias, imagem que prefigura aqueles que visitam Jesus, como atestará Mt 2,11. Esse tempo messiânico, que inspira o profeta, faz lembrar a glória de Jerusalém, cidade santa e bem edificada, morada do grande Rei. A shequinah do Senhor lá está, e a ela as pessoas se dirigem para oferecer incenso e ouro, oblatas que indicam a divindade e a realeza do Senhor de Israel.

2. II leitura (Ef 3,2-3a.5-6)

Paulo, na carta aos Efésios, trata sobre o mistério de Deus revelado em Cristo. Por dom de Deus e pura gratuidade, o apóstolo é capaz de acolher esse mistério, assim como nós também o acolhemos em sua epifania, manifestação-doação. Deus se revela na história da humanidade por meio de uma pessoa, Jesus Cristo. Assim, temos hoje o encontro com uma pessoa – não com uma doutrina, um dogma ou uma verdade, mas com uma pessoa – que pode nos levar à salvação.

O que Deus revelou outrora, ele agora nos revela por seus profetas e santos apóstolos. Dessa maneira, Paulo está convicto de que todos os pagãos estão admitidos à mesma salvação oferecida aos primeiros aos quais Deus se revelou em Jesus Cristo. Todos somos membros do corpo de Cristo, que é a Igreja; ela tem hoje uma missão especial de anunciar Jesus Cristo ao mundo, revelando-o a todos e todas, em vista da salvação.

3. Evangelho (Mt 2,1-12)

Belém, a “Casa do Pão”, é um lugar especial para a fé judaica e também cristã. Lá nasceu o rei Davi e, segundo a tradição, ocorreu o nascimento de Jesus. Belém era a cidade da bisavó de Davi, Rute (Rt 1,1-4), e de sua família (1Sm 16; 17,12). Uma citação de Miqueias (Mq 5,1) foi mudada por Mateus, que trocou “clãs de Judá” por “regentes de Judá”, a fim de realçar o aspecto messiânico, acrescentando o trecho “apascentará Israel, o meu povo”, tirado de 2Sm 5,2. A narrativa de Mateus afirma que, no tempo do rei Herodes, tendo nascido Jesus em Belém, vieram magos do Oriente a Jerusalém, perguntando: “Onde está o rei dos judeus recém-nascido?” (v. 2). Tal questão alerta a Herodes e, com ele, toda a Cidade Santa. Para Herodes, não poderia existir outro rei, pois assim seu trono seria posto em xeque, e seu poder em disputa. Herodes, o Grande, era um rex socius de Roma – rei vassalo do Império – que governou entre 37 e 4 a.C., uma figura forte e igualmente citada em Lc 1,5 como “o rei da Judeia”.

Os magos, por sua vez, seguiram a estrela, desde seu surgimento, no Oriente, e vieram para homenagear o Senhor. Podem ser entendidos como uma casta de sábios astrólogos ou intérpretes de sonhos, ligados também ao zoroastrismo, religião persa que definia o mundo entre bem e mal. Os magos são apenas citados por Mateus. Na tradição cristã, posteriormente, tornaram-se reis, à luz da interpretação de Sl 72,10: “Os reis de Társis e das ilhas trarão presentes; os reis de Sabá e de Seba oferecerão dons” e de textos de Isaías (Is 49,7; 60,10). Uma espécie de midrash fez que essas figuras do passado dessem sentido à presença dos magos que visitam o Filho de Deus com presentes. Por fim, foram nomeados como Gaspar, Baltasar e Melquior, representando os gentios.

Ao chegarem ao lugar, os magos viram o menino, deitado na manjedoura, e sua mãe. Então fizeram, tal como na primeira leitura, suas ofertas ao Rei-Messias: ouro, incenso e mirra. O ouro é símbolo da realeza de Jesus. Já o incenso simboliza sua divindade. Por último, a mirra é sinal de sua humanidade, que será, no fim do Evangelho, usada para a unção do sepulcro, em vista de sua ressurreição. O v. 12 conclui o relato, dizendo que os magos tomaram outra direção e retornaram para casa sem terem voltado a Herodes, que certamente esperava informações precisas sobre onde o menino teria nascido.

III. PISTAS PARA REFLEXÃO

Compreender que, unidas, as três leituras almejam que todos sejam acolhidos na comunidade dos fiéis e sejam luz para o mundo, sobretudo para os desanimados. Perceber que o Natal do Senhor renova nossa esperança de um mundo mais justo e solidário. Propor que a comunidade litúrgica se sinta chamada nesta liturgia a unir-se sempre mais como corpo de Cristo, convidada à salvação em Jesus. Por fim, despertar em cada fiel o ímpeto de ofertar-se ao Senhor tal qual os magos fizeram outrora, quando lhe ofereceram ouro, incenso e mirra.

Pe. Junior Vasconcelos do Amaral*é presbítero da arquidiocese de Belo Horizonte-MG e vigário episcopal da Região Episcopal Nossa Senhora da Esperança. Doutor em Teologia Bíblica pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje – BH), realizou parte de seus estudo de doutorado na modalidade “sanduíche”, cursando Narratologia Bíblica na Université Catholique de Louvain (Louvain-la-Neuve, Bélgica). Atualmente, é professor na PUC-Minas, em BH, e pesquisa sobre psicanálise e Bíblia. E-mail: jvsamaral@yahoo.com.br

Fonte: Vida Pastoral

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